segunda-feira, 30 de abril de 2012

Títulos – Campeonato Paulista de 1977

Como explicar que um time bicampeão do mundo, campeão da América e com diversos títulos nacionais e internacionais tenha como sua maior conquista um simples título paulista entre os tantos de sua história? A resposta é fácil se esse título for o Paulista de 1977, vencido pelo Corinthians após um jejum que durou 23 anos – ou melhor, exatos 22 anos, oito meses e sete dias.

Após ser o campeão paulista do IV Centenário em 1954, imaginava-se que o Corinthians continuaria se mantendo como o maior time do país, mas não foi isso que aconteceu. O final da década de 50 apresentou a decadência corinthiana e a ascensão do Santos de Pelé, que se tornou o time a ser batido no estado de São Paulo. O tempo foi passando, a crise corinthiana foi aumentando, e entre a esperança de voltar a ser campeão e as várias decepções às quais a Fiel Torcida teve que se submeter, chegamos ao ano de 1977, quando finalmente, após tanta espera, o jejum seria quebrado.

De acordo com o seu regulamento, o longuíssimo Campeonato Paulista de 1977 seria disputado em três turnos, mais a final.

No primeiro turno, o qual valia a Taça Cidade de São Paulo, os 19 clubes participantes foram divididos em quatro grupos, mas apenas para efeito de pontuação, já que todos jogariam contra todos, em turno único. Os líderes de cada grupo após 18 rodadas se classificariam para o mata-mata que definiria o campeão daquele turno.

Nosso início não foi dos melhores. Após maus resultados, o técnico Duque foi demitido, e para o seu lugar contamos com o retorno de Oswaldo Brandão, treinador responsável pelo último título conquistado pelo Corinthians, o histórico Campeonato Paulista de 1954 (sem contar o título dividido do Rio-São Paulo de 1966, no qual Brandão também era o nosso comandante). E assim as coisas começaram a se encaixar, embora não tenhamos conseguido avançar para a fase final, pois ficamos em segundo lugar do Grupo B, logo atrás do Botafogo de Ribeirão Preto, equipe que inclusive seria a campeã do primeiro turno e tinha como maior destaque o futuro craque corinthiano Sócrates.

No segundo turno, que colocava em disputa a Taça Governador do Estado (não confundir com o torneio internacional de mesmo nome disputado também em 1977), o sistema seria o mesmo do primeiro, a única diferença sendo o reagrupamento das equipes.

Nessa etapa, não teve pra ninguém: o Timão liderou o Grupo C, fazendo a segunda melhor campanha geral, atrás apenas do Palmeiras, e foi com tudo para o mata-mata. Na semifinal, venceu o São Paulo por 2x1, na prorrogação, com gols de Geraldão e Luciano, e venceu também o Palmeiras na final, por 1x0, novamente com gol de Geraldão.

No terceiro turno, decisivo, oito times (campeões e vices do 1º e do 2º turnos, mais dois por índice técnico e outros dois por arrecadação) seriam divididos em dois grupos, novamente apenas para efeito de classificação, já que todos enfrentariam todos, em turno único. Após cada equipe cumprir seus sete jogos, os vencedores de cada grupo se classificariam para a grande final.

Sorteado no Grupo F, ao lado de São Paulo, Guarani e Portuguesa, o Corinthians não teve vida fácil nessa etapa, e só conseguiu três pontos em seus primeiros quatro jogos, enquanto o rival São Paulo parecia encaminhar sua classificação para a final após somar oito pontos nas primeiras cinco partidas. Sabendo que o título só seria possível com a união e o empenho do grupo, o técnico Oswaldo Brandão reuniu o time após a derrota contra o Guarani, que foi a quarta partida do Timão nesse turno, e comunicou que quem não acreditava no título não precisaria nem ir treinar no dia seguinte. O time não era de craques, mas tinha guerreiros unidos pelo propósito de tirar o clube da fila, e o recado foi entendido por todos: era preciso acreditar e jogar com mais raça do que nunca.

Depois disso, os resultados começaram a aparecer: uma vitória contra o Botafogo fora de casa e outra contra a Portuguesa, ambas por 1x0, fizeram com que o Corinthians chegasse a sete pontos – na época, a vitória valia dois pontos – e pudesse decidir a vaga para a decisão exatamente na última rodada do grupo, contra o São Paulo, que havia perdido para o Santos e se mantinha com oito pontos. Ou seja: para ir à final, o Corinthians precisaria vencer o São Paulo. E com gols de Geraldão e Romeu, derrotamos a equipe do Morumbi por 2x1, chegando a nove pontos e conseguindo como que por um milagre a classificação para disputar a final.

Nosso adversário na decisão seria a Ponte Preta, fortíssima na época, que possuía em seu elenco jogadores de Seleção Brasileira e havia derrotado o Corinthians três vezes nos três turnos anteriores do campeonato. O confronto seria uma melhor de quatro pontos – lembrando que a vitória valia dois pontos na época –, sendo que o Timão entrava com um ponto extra na decisão devido à melhor campanha por ter mais vitórias do que a Ponte ao longo da campanha (26 a 23).

Disputada em 5 de outubro, a primeira partida da final foi vencida por 1x0 pelo Corinthians com o famoso "gol de cara" de Palhinha, lance em que a bola defendida pelo goleiro da Ponte voltou no rosto do atacante corinthiano e entrou no gol. No dia 9, quando foi jogada a partida de volta, 146.082 pessoas lotaram o Morumbi (no maior público não apenas da história do Corinthians e do estádio, mas do futebol paulista em todos os tempos) com a certeza de ver o Timão campeão, e o gol de Vaguinho no fim do primeiro tempo deu ainda mais esperança à Fiel Torcida. Mas sendo o Corinthians em campo, o sofrimento sempre dá as caras, e dessa vez não foi diferente: a Ponte virou o jogo no segundo tempo, e o resultado em 2x1 obrigou a realização de uma terceira partida, que seria disputada no dia 13.

Pra piorar, Palhinha, o jogador mais técnico do time, não tinha condições de jogo. E assim, outro acontecimento fortaleceu ainda mais o grupo: Oswaldo Brandão, ao perguntar para o jogador se ele tinha condições de jogo, ouviu que não seria possível, pois a dor dele era muito grande. Brandão respondeu então que a dor que ele próprio sentia naquele momento era muito maior: seu filho Márcio, com câncer, se encontrava em estado terminal. Isso comoveu e uniu ainda mais a equipe, e a promessa foi feita: o time ganharia aquele título, em homenagem a Brandão e seu filho.

A partida decisiva foi tensa desde o início. Ainda no primeiro tempo, houve a expulsão do atacante ponte-pretano Rui Rei por ofensa ao disciplinador árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia (o que, como de costume, gerou reclamações de favorecimento ao Corinthians que persistem até os dias de hoje). O 0x0 teimava no placar, e em caso de igualdade, teríamos prorrogação, na qual o Corinthians jogaria pelo empate. A pressão corinthiana era total, até que veio o gol que libertou uma nação de seu sofrimento: em uma falta na ponta-direita, Zé Maria levantou a bola na área; Basílio tocou de cabeça, e a sobra foi de Vaguinho, que soltou uma bomba de pé esquerdo; a bola explodiu na trave e voltou para Wladimir, que cabeceou em cima do zagueiro Oscar; e ela veio pra Basílio, que encheu o pé direito e estufou as redes. Corinthians 1x0. Gol de Basílio. Gol do título. Gol da libertação.

A festa do 16º título paulista do Corinthians durou a madrugada inteira – e na verdade dura até hoje. O gol de Basílio, sem dúvida o mais importante dos mais de 10.000 já marcados na história do Corinthians, acabou com um tormento de 23 anos e fez com que os corinthianos, depois de tanto tempo, pudessem soltar o grito de campeão mais uma vez. Até mesmo a maldição de Pelé – que, de acordo com o folclore do futebol, teria afirmado que o Corinthians jamais seria campeão enquanto ele jogasse –, pôde ser quebrada: ele havia se aposentado 12 dias antes...

Essa história é contada no DVD 23 Anos em 7 Segundos, lançado pela Fox em 2009. No filme, além de depoimentos de jornalistas e torcedores, vemos a história contada pelos próprios jogadores, os heróis da conquista, como Zé MariaWladimir, Geraldão e Vaguinho, além, obviamente, de Basílio, o "Pé-de-Anjo", autor do gol da redenção.


Time-base: Tobias (Jairo); Zé Maria, Moisés (Darci), Zé Eduardo (Ademir) e Wladimir (Claudio Mineiro); Ruço, Basílio (Lance) e Luciano (Adãozinho); Vaguinho, Palhinha (Geraldão) e Romeu (Edu). Técnico: Oswaldo Brandão.

Para ver uma lista com todos os títulos da história do Corinthians, clique aqui.

Para acessar os posts sobre outros títulos da história do Corinthians, clique aqui.
                  

Nenhum comentário:

Postar um comentário