sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Títulos – Campeonato Brasileiro de 2005

No final de 2004, firmada a parceria do Corinthians com a MSI, dinheiro era o que não faltava para a contratação de jogadores de peso. E eles vieram aos montes: formando uma equipe que ficaria conhecida como "Os Galáticos" em alusão ao milionário time que o Real Madrid tinha na época, foram trazidos para o Parque São Jorge jogadores de peso como o zagueiro argentino Sebá, o lateral-esquerdo Gustavo Nery, os meias Roger e Carlos Alberto e a estrela maior, o atacante Carlitos Tévez, também argentino. Posteriormente ainda chegariam o atacante Nilmar e outro argentino, o volante Mascherano, entre outros.

Apesar da equipe milionária que vinha sendo montada, os resultados no primeiro semestre de 2005 foram risíveis: um vice-campeonato paulista e uma eliminação nas oitavas de final da Copa do Brasil. Por isso, o Brasileirão começou a ser visto como obrigação.

Seguindo a fórmula vigente desde 2003, o campeonato era disputado em pontos corridos. Eram 24 participantes, todos enfrentando todos em turno e returno ao longo de 46 rodadas.

O início do campeonato foi uma tragédia: somamos apenas um dos primeiros nove pontos disputados, culminando em uma humilhante goleada sofrida contra o São Paulo por 5x1 em pleno Pacaembu. Isso custou a cabeça do então treinador, o também argentino Daniel Passarella, e em seu lugar assumiu o interino Márcio Bittencourt, campeão brasileiro pelo Corinthians como jogador em 1990. Márcio, aliás, foi o terceiro técnico em três meses, já que Tite já havia treinado a equipe no começo do ano.

Foi só com Márcio no comando que a coisa engrenou: o treinador conseguiu domar os inflados egos dos atletas e logo de cara o time conseguiu cinco vitórias seguidas, chegando ao G4 pela primeira vez no campeonato já na oitava rodada. Na sequência, após duas derrotas consecutivas, veio outra série de cinco vitórias seguidas. Tais resultados levaram o Timão à liderança na 17ª rodada, posição que ocupou até o fim do primeiro turno.

Nesse meio tempo, o corinthiano já tinha um ídolo incontestável em sua galeria: Carlitos Tévez. O argentino, que aliava habilidade a muita raça, caiu nas graças da Fiel rapidamente. As ruas foram invadidas pela camisa 10 corinthiana com o nome do jogador nas costas, e até o seu corte de cabelo era imitado, principalmente pelas crianças. Teve muito brasileiro na época torcendo para a Seleção Argentina e até arriscando uns passinhos de cumbia, como Carlitos fazia na comemoração de seus gols, na tentativa de ficar mais parecido com o ídolo.

Vencer o primeiro turno, além de valer o Troféu Osmar Santos, oferecido pelo jornal Lance!, encheu de esperança o torcedor, mas o fato é que o Corinthians era uma equipe que oscilava muito. Conseguia vitórias importantes em partidas difíceis, mas perdia pontos contra equipes mais frágeis. Tinha o melhor ataque, mas também uma das piores defesas da competição. O sistema de jogo apresentado era extremamente ofensivo, com um time que jogava pra frente, explorando as qualidades de Tévez, mas essa postura acabava desprotegendo o sistema defensivo, que acabava sofrendo muitos gols. Essa era a filosofia do treinador Márcio, que chegou a declarar que não estava preocupado em ter uma defesa muito vazada, pois um time que leva quatro gols mas sempre faz cinco irá vencer todas as suas partidas. O problema é que a defesa vinha se acostumando a falhar, só que nem sempre os atacantes resolviam lá na frente. Alternando altos e baixos, não teve jeito: vimos a liderança escapar de nossas mãos logo no início do segundo turno.

Mas tudo isso ficou em segundo plano a partir do dia 23 de setembro, quando foi revelada a existência de um dos maiores escândalos da história do futebol brasileiro: a Máfia do Apito, esquema de manipulação de resultados criado para beneficiar investidores de sites de apostas. Após a análise de escutas telefônicas e dos depoimentos dos envolvidos, foi descoberto que o árbitro Edílson Pereira de Carvalho, que havia apitado 11 partidas daquele Brasileirão, recebia dinheiro para influenciar diretamente no resultado das partidas de acordo com os interesses dos apostadores. Depois de muita discussão, a decisão tomada por Luiz Zveiter, presidente do STJD, foi a de anular esses 11 jogos e realizá-los novamente.

A partir desse momento, o campeonato virou de cabeça para baixo. Ao todo, 14 das 22 equipes participantes foram diretamente atingidas pela decisão, mas o maior beneficiado na história acabou sendo o Corinthians, embora o clube não tivesse nada a ver com o ocorrido. Isso se deu porque fomos derrotados nos dois jogos que havíamos disputado com a arbitragem de Edílson (um clássico contra o Santos e outro contra o São Paulo), ou seja, enquanto outras equipes tinham que refazer jogos para na melhor das hipóteses recuperarem os pontos que haviam perdido com a anulação dos resultados, o Corinthians teria uma nova chance de buscar seis pontos que não havia conseguido somar. Foi o bastante para os conspirólogos de plantão começarem a levantar uma teoria de favorecimento ao Corinthians, com o absurdo argumento de que era tudo feito com a intenção de colocar a gente na ponta da tabela. Pura bobagem. O esquema era algo muito maior e se estendia até mesmo à Série B do Brasileiro, com reflexos nas três principais divisões do campeonato nacional.

Para as pessoas contrárias à repetição dos jogos, havia o argumento de que nem todas as partidas anuladas haviam recebido apostas e que em algumas delas a arbitragem não conseguiu cumprir o combinado, fora o fato de que Edílson não era o único árbitro envolvido no esquema. Já aqueles favoráveis à remarcação simplesmente achavam absurdo que se considerassem válidos resultados apitados por um juiz declaradamente culpado e que a melhor solução seria repetir as partidas com uma arbitragem não viciada. Qual seria a decisão mais justa a se tomar? Jamais saberemos.

No meio de todo este turbilhão, mais uma bomba explodiu no Parque São Jorge: surpreendentemente, após uma convincente vitória sobre o Flamengo fora de casa por 3x1 e com o time na vice-liderança, o treinador Márcio Bittencourt foi demitido em 25 de setembro. A notícia, que pegou a todos de surpresa devido ao bom momento que a equipe atravessava – com 17 vitórias, cinco empates e seis derrotas em 28 jogos, Márcio apresentava os melhores números de um técnico do Corinthians nos últimos 15 anos –, foi justificada pela necessidade de um treinador mais experiente para a disputa da sonhada Libertadores do ano seguinte. Assim, Antônio Lopes, que já havia sido campeão continental pelo Vasco em 1998, foi apresentado como o quarto técnico corinthiano no ano.

Conforme o campeonato prosseguia, a polêmica só aumentava: chegado o momento dos jogos repetidos, a revolta daqueles contrários à anulação dos jogos aumentou ainda mais, pois o Corinthians acabou vencendo o Santos e empatando com o São Paulo, somando assim quatro dos seis pontos que havia desperdiçado, e encostou novamente na liderança, que seria retomada na rodada seguinte. Mas não adiantava chorar, porque não haveria mais oscilações: a liderança seria mantida dali até o final. Era o Corinthians rumo ao tetracampeonato.

Polêmicas à parte, o Corinthians teve grandes momentos no campeonato. Um deles foi a já citada vitória sobre o Flamengo, pela 28ª rodada. Márcio Braga, presidente rubro-negro, havia perguntado dias antes da partida "Quem é Tévez?", ironizando o atacante argentino. Inflamado pela provocação, Tévez acabou com o jogo. "Agora ele me conhece, dentro de campo ele me conhece", respondeu o argentino após a partida. Ele marcou dois gols e comemorou cada um deles fazendo um movimento de quem tira o chapéu, como se estivesse se apresentando a alguém.

Mas o auge do Timão no campeonato foi a partida contra o Santos pela 37ª rodada: o "Eterno 7x1". Sim, o Corinthians fez sete gols no rival em uma mesma partida, naquela que foi uma das maiores exibições da história recente do Corinthians. Um massacre que recebeu até camiseta comemorativa do Departamento de Marketing do Corinthians anos depois.

Outra partida importante, e também polêmica, se deu na 40ª rodada, contra o vice-líder Internacional, no dia 20 de novembro, em uma espécie de final antecipada do campeonato. O jogo, que acabou empatado em 1x1, teve um pênalti escandaloso não marcado do goleiro Fábio Costa no meia colorado Tinga, que ainda foi injustamente expulso por simulação pelo árbitro Márcio Rezende de Freitas. Com o resultado, foi mantida a diferença de três pontos que o Corinthians trazia de vantagem para o Inter, praticamente tirando a equipe gaúcha da disputa do título. A má arbitragem gerou ainda mais acusações de favorecimento ao Corinthians, pois de certa forma acabou encaminhando o título para as nossas mãos.

Na rodada final, em 4 de dezembro, com três pontos de vantagem na liderança, bastava ao Corinthians um empate fora de casa contra o Goiás para ser campeão, ou, na pior das hipóteses, perder a sua partida e torcer para o Inter não vencer o Coritiba. No final, fomos derrotados por 3x2, mas o Inter também perdeu o seu jogo, e assim comemoramos o nosso quarto título brasileiro, o primeiro da era dos pontos corridos.

Um campeonato tão problemático não poderia acabar sem polêmica: os jogadores do Inter, se colocando na condição de "campeões morais", resolveram dar a volta olímpica com a justificativa de que terminaram o campeonato um ponto à nossa frente se os jogos repetidos não forem considerados. Uma situação patética, pra dizer o mínimo. Como ironizou o volante Marcelo Mattos, "O Inter vai se cansar de ficar dando volta olímpica", pois de nada iria adiantar. E, realmente, de nada adiantou.

A verdade é que o Corinthians é sim o campeão legítimo de 2005. No entanto, é inegável para nós, corinthianos, que se trata de um título com gosto amargo, pois é impossível contar a história dessa conquista sem mencionar todos os aspectos negativos aqui abordados. Mas pra encerrar qualquer discussão, fiquemos com as sábias palavras do zagueiro Betão: "O Corinthians é tetra. Chora quem quiser!".


Time-base: Fábio Costa (Marcelo); Eduardo Ratinho (Coelho) (Edson), Marinho (Sebá), Betão (Wescley) e Gustavo Nery; Marcelo Mattos (Wendel), Rosinei (Bruno Octávio) (Fabrício), Roger (Dinélson) e Carlos Alberto (Hugo); Tévez e Nilmar (Jô) (Bobô). Técnico: Antônio Lopes.

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